quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

VAMPIRO




Autor: Lino França Jr.


Pareço jovem
Mil anos vivi
O peito sofre
A boca sorri

De dia reluto
No escuro me esmero
Em mim tu confias
Não sou mais sincero

Um anjo enraivece
Sem luz, desafia
Com o mal soberano
Tua sombra me guia

Na tempestade triunfo
Ao sol convalesço
Se a mim tu procuras
Não te reconheço

A lua desperta
A sede enlouquece
Não há mais refúgio
Reforce tua prece

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

INFELIZ NATAL



Autor: Lino França Jr.


Acordei sobressaltado com os ruídos rompendo meus tímpanos. Primeiro foi a maçaneta sendo forçada sem sucesso. Logo a seguir, o retinir de vidro quebrado transformando-se em dezenas de menores pedaços no chão. Depois, os passos. Pesados passos. Arrastados passos. Passos e o arrastar de algo pesado, na verdade. Esgueire-me pelo corredor após sair do quarto. Na ponta dos pés, segui em direção à cozinha. Procurei alguma arma branca na gaveta de talheres. Enquanto isso, o invasor permanecia com seus movimentos na sala; certamente, estava escolhendo os objetos de maior valor, ainda que estes não sejam encontrados em fartura na minha humilde residência. De volta à cozinha, encontrei uma pequena machadinha, que moldou-se perfeitamente em minhas mãos. Caminhei com as costas coladas á parede e cheguei à sala. O maldito invasor estava de frente à ridícula árvore de natal, que, mesmo a contragosto, eu insistia em montar todo final de ano. No chão, o larápio já exibia um enorme saco de pano, recheado com meus pertences roubados. O homem era realmente grande e meu ataque teria de ser certeiro. Deslizei pela parede e antes que o cretino pudesse perceber minha presença, o arrebatei com uma pancada violenta na nuca. A machadinha recém afiada foi fatal, fazendo o sangue do gatuno esguichar contra meu rosto. O maldito caiu pesadamente contra o piso de madeira e começou a estrebuchar. Agachei e continuei o ataque com pancadas devastadoras na cabeça e pescoço do invasor. Quando percebi que o homem parara de respirar, cessei meus atos, porém, eu já havia quase decepado sua cabeça. Respirei fundo e fui até o interruptor acendendo a luz da sala. Qual foi minha surpresa quando reconheci a famosa roupa vermelha (ainda mais vermelha pelas manchas de sangue), a barba branca (com recentes manchas vermelhas de sangue), e o imenso saco de presentes aberto no chão.
- Putz!!! – pensei – e não é que realmente existe Papai Noel...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A POSSESSÃO DE DIMITRI




Autor: Lino França Jr.


Final de agosto. O afluxo de tempestades naquele meio de estação ao sul do país parecia não ter fim. O sol dificilmente vencia a muralha de grossas nuvens cinzentas que insistiam em permanecer sob o firmamento, tirando, aos poucos, a esperança do povo por dias melhores. Coincidência ou não, o período em que o astro-rei deixou de fulgir na abóbada celeste foi de infortúnios, não só em nosso país, mas de modo geral a impressão que se tinha, era que o mundo caminhava, a passos largos, para os seus últimos dias. Uma nova e mortífera doença fora descoberta por cientistas americanos, e a peste se espalhava pelo planeta em níveis alarmantes, disseminando assim, grande parte da população. Países vizinhos declararam guerra no Oriente Médio, por motivos de particularidades que só a eles cabiam, e que o restante do mundo não conseguia entender. Terríveis desastres ecológicos explodiam em todos os continentes. O resultado disso era facilmente notado pelas doenças respiratórias que se alastravam entre crianças e adultos. Um colapso econômico varreu os empregos de metade da população, fazendo com que os números de atos de vandalismo, roubos e assassinatos subissem em profusão. Enfim, estávamos muito perto do caos.

Em sua bela mansão de doze quartos, Verônica estava alheia às adversidades do mundo. Ela tinha e vivia seu inferno próprio. Após o sumiço do marido, a bela mulher de quarenta e poucos anos, agarrou-se ao que mais lhe poderia causar felicidade, se é que esta palavra ainda tivesse sentido em seu dicionário particular. Dedicava todo e qualquer esforço na criação do filho, Dimitri. O rapaz de dezesseis anos era esperto, excelente aluno e ótimo atleta. Amado pelos amigos e familiares, tinha irrefutáveis qualidades, que agradava à todos. Desgraçadamente, após a perda do pai, o rapaz transformou-se de tal forma, que os mais próximos diziam que não se tratava da mesma pessoa. Dimitri vivia isolado do mundo. Perdeu o gosto pelas boas e simples coisas da vida, e evitava o contato com aqueles que outrora viviam constantemente em seu círculo de amizades. Aos poucos, o garoto foi ficando enclausurado, por conta própria, em seu espaçoso quarto no segundo andar da mansão.
Além do vazio, a casa era habitada por sua inconformada mãe, e meia dúzia de empregados que pouco tinha o que fazer no lugar. Mesmo assim, Verônica fazia questão que tudo em sua residência exalasse nobreza, amor, alegria, coisas que já não existia em sua vida há tempos. Desta forma, cobrava dos empregados que todas as suas atividades diárias fossem realizadas com esmero.

Foi num domingo chuvoso que Verônica começou verdadeiramente a preocupar-se com o único filho. Nas raras vezes em que o rapaz era visto pela casa, exibia marcas arroxeadas pelo corpo, das quais ele não sabia dizer as origens. Os olhos fundos e a pele extremamente branca, conferiam-lhe uma aparência fantasmagórica. Diante da falta de interesse pela vida, a mãe tentava a todo custo, mostrar ao filho que havia possibilidades infinitas de se buscar a satisfação pessoal. Entretanto, todos os seus esforços mostravam-se cada vez mais inúteis.
Foi naquela mesma noite que os acontecimentos bizarros começaram a assolar a vida naquela mansão. Entre breves cochilos e a insônia que insistia em lhe fazer companhia, Verônica ouviu os primeiros barulhos. Apurou os ouvidos e identificou sons de batidas surdas. Àquela hora da madrugada era improvável que algum dos criados estivesse realizando alguma atividade relacionada à casa. A mulher saiu do quarto e caminhou pelo amplo corredor, que exibia nas paredes fotos de um passado não muito distante, quando realmente havia uma bela família habitando aquela casa imensa. Seguiu os ruídos intermitentes e verificou que os sons vinham do quarto de Dimitri. Antes de entrar, ainda se deu ao trabalho de bater à porta evitando incomodar o filho:
- Dimitri querido, o que está havendo?
Nenhuma resposta.
As batidas continuavam a chegar aos ouvidos de Verônica que, preocupada, abriu a porta do quarto do rapaz sem mais esperar. Para sua consternação, o que se via no interior do cômodo fez seu coração disparar, e por alguns segundos sentiu as forças faltarem-lhe ás pernas. No centro do quarto, Dimitri encontrava-se completamente nu, com as mãos espalmadas de frente à parede, e com força absurda, batia a testa no concreto, fazendo o sangue espirrar para os lados. Verônica apressou-se em se aproximar do filho, e desesperada, tentou a tudo custo, afastar o filho da parede manchada de sangue num primeiro momento. Usando de toda a sua força, a mulher puxava com ambos os braços o peito do rapaz que mal sentia as investidas da mãe. Verônica gritava para que ele parasse, mas Dimitri não manifestava sequer um sinal de parar de estourar a cabeça na parede. A mãe, mais uma vez, gritou aflita:
- DIMITRI, PARE COM ISSO PELO AMOR DE DEUS!!!
O rapaz virou-se para a mulher com o sangue vertendo da testa e escorrendo por todo o rosto, deixando a face do garoto apavorante, como se estivesse usando uma grotesca máscara rubra. Dimitri fitou a mulher nos olhos e num sorriso debochado, apenas perguntou numa voz que não era a sua:
- Deus?
Num movimento rápido esbofeteou Verônica com as costas da mão, e depois disso, cerrou os olhos, caindo de joelhos e esparramando o corpo desnudo pelo chão frio.
Assustada, Verônica ergueu o filho com dificuldade nos braços, e o colocou sobre a cama. Desceu as escadas gritando aos empregados para que ligassem com urgência para o médico da família. Em menos de uma hora, todos os criados estavam de pé, e o doutor era recebido na porta principal, e levado apressadamente para o quarto de Dimitri.
Após ouvir o relato de Verônica, e de fazer um exame prévio no estrago na testa do rapaz, o médico ligou imediatamente para que uma ambulância viesse buscar o paciente para uma análise mais incisiva sobre o estado do paciente.
Já no hospital, o médico atestou um traumatismo craniano leve, mas o rapaz levaria inúmeros pontos no pouco de pele que sobrara em sua testa. Após três dias em observação, Dimitri teve alta e pode voltar para sua casa.

Durante o período de internação, Verônica evitou tocar no assunto com Dimitri sobre o ocorrido. Ele, por sua vez, mantinha o mesmo comportamento arredio e solitário. Apenas balbuciava poucas palavras e não fazia menção de perguntar o que estava fazendo no hospital.
Ao chegar em casa, Verônica acompanhou o filho até o quarto e após ajudá-lo a deitar-se, pela primeira vez lhe perguntou:
- Filho, você não se lembra do que aconteceu?
Dimitri mirou a mãe com seus olhos sem expressão, e respondeu em voz baixa:
- As vozes, mãe. Foram as vozes.
- Que vozes, filho? Vozes de quem? – indagou Verônica.
Mas aquelas poucas palavras foram as únicas proferidas pelo filho naquele dia.
Apesar de tantas perguntas sem respostas, Verônica estava mais tranqüila por ter o filho de volta sob o mesmo teto. Após um longo banho, deitou-se na cama e adormeceu quase que instantaneamente. Acordou sobressaltada no meio da madrugada, em meio a um pesadelo confuso do qual não conseguia se lembrar. A camisola de seda branca estava colada ao corpo em razão da transpiração. Levantou-se da cama e foi até a janela abrindo-a devagar. O ar frio da noite fez seus cabelos longos bailarem refrescando seu pescoço e colo, mas, ao aprumar os olhos em direção ao extenso jardim da mansão, vislumbrou uma sombra na mesma direção do quarto de Dimitri. O céu carrancudo anunciava a chegada de uma nova tempestade, e as pesadas nuvens deixavam a noite ainda mais escura. Por este motivo, era impossível para Verônica conseguir enxergar o rosto do misteriosa figura. A sombra do estranho era extremamente difusa; seus ombros eram largos e pontiagudos; talvez, pela posição em que ele se encontrava, pareciam duas enormes asas recolhidas. Um relâmpago brilhante rasgou o céu negro iluminando a face do desconhecido. Neste exato momento, a mulher sentiu seu sangue regelar ao reconhecer na figura parada no jardim de sua casa, o rosto deformado do filho. O trovão estourou forte do alto e fez com que Verônica voltasse a si depois do choque. A mulher saiu do cômodo e dirigiu-se ao quarto de Dimitri. Ainda no corredor, a poucos passos de distância foi que a mulher ouviu uma confusão de vozes que vinham exatamente do quarto do filho; diminuiu a passada tentando concentrar-se nas vozes, mas não foi capaz de identificar nenhuma palavra, sequer a língua que estavam falando. Aproximou-se da porta do quarto e a abriu evitando fazer barulho. Na cama, Dimitri dormia tranquilamente, ainda que uma esfumaçada luz fugaz saísse da direção do corpo do rapaz em direção à janela.

No final da tarde do dia seguinte, Verônica recebeu a visita do médico da família. Após uma breve conversa, ambos seguiram em direção às escadas a fim de ver Dimitri. Antes de chegarem ao primeiro degrau um estrondo ribombou nas pilastras de concreto da mansão. Assustada, Verônica, rapidamente, identificou que o barulho vinha do andar de cima da casa, mais precisamente, na direção do quarto do filho. Os dois subiram os degraus apressados. A porta do quarto de Dimitri abria e fechava com violência sem que ninguém estivesse próximo a ela. Um urro animalesco irrompeu do cômodo fazendo os pêlos da nuca do médico arrepiar-se. Verônica aproximou-se lentamente da porta, ao mesmo tempo em que esta se abriu de uma só vez e uma lufada quente e pesada passou pelos dois no corredor. Adentraram ao quarto e notaram que o cômodo recendia um forte cheiro rançoso de carne podre. A mulher levou as mãos sobre o nariz e sentiu seu estômago se contrair num espasmo. O médico vasculhou o lugar com os olhos procurando por seu paciente. Dimitri estava deitado de bruços no chão próximo à janela; vestia um pijama branco com listras, e em suas costas, largas marcas vermelhas manchavam o tecido. O médico ajoelhou-se e tocou o ombro do rapaz. Dimitri começou a debater-se violentamente; seu corpo todo parecia sofrer uma descarga elétrica; o rosto virado em direção da cama se contorcia e da sua boca escapava um grosso líquido amarelado. Verônica começou a chorar ao ver o estado do filho, já imaginando que aquela situação devia-se a alguma seqüela pelo traumatismo craniano sofrido pelo rapaz. O médico conseguiu, com muito custo, virar o corpo do rapaz e bateu levemente no rosto do Dimitri. O garoto abriu os olhos, mas suas íris estavam desfocadas; só era possível ver os globos oculares brancos do rapaz, marcados por sulcos profundos por debaixo das pálpebras molhadas de suor. Dimitri emitia palavras desconexas em idiomas dos quais nunca haviam chegado aos ouvidos do médico. O rapaz falava sem parar, mal respirando entre as estranhas frases proferidas. A cada frase, a voz de Dimitri se transformava de um agudo estridente, a um grave poderoso, e entre ambas, outras notas impossíveis eram atingidas pelas cordas vocais do rapaz. Verônica reconheceu de imediato as mesmas vozes ouvidas na noite anterior. O médico bateu novamente no rosto do rapaz, desta vez com mais força. Dimitri cravou as unhas no próprio rosto e puxou os dedos para baixo com força, rasgando a pele e fazendo o sangue surgir em abundancia pela face. Verônica abaixou-se próxima ao filho tentando inutilmente segurar suas mãos, o garoto parecia ter adquirido uma força descomunal, e com o braço esquerdo empurrou a mãe para trás, agarrando, em seguida, o pescoço do médico que começava a sufocar. Desesperada, a mãe gritou para os empregados que surgiram aflitos na porta do quarto, e com um esforço enorme, conseguiram soltar as mãos de Dimitri, arrastando o rapaz pelo chão, para depois colocá-lo em cima da cama. Seguro pelas pernas e braços, o rapaz não teve como continuar suas investidas. O médico, após conseguir sorver um pouco de ar, aproximou-se do garoto para algum novo exame, mas foi surpreendido com uma cusparada melosa no rosto, seguido por risada macabra, numa voz, que novamente, não lembrava em nada a de um garoto de dezesseis anos. Desta vez, foi Verônica que investiu contra o filho, largando a mão no rosto do rapaz que desta vez pareceu sentir o golpe, soltando os nervos enrijecidos e desfalecendo no colchão.
Verônica caiu em prantos diante daquele quadro de horror. Os criados não sabiam o que pensar, e apenas tentavam recobrar o fôlego depois de tanto esforço. O médico exibia as marcas dos dedos de Dimitri no pescoço. O homem pediu a ajuda dos empregados da casa para erguer o rapaz a fim de tirar-lhe a camisa. O tórax do rapaz estava totalmente marcado com feridas que sangravam, além de marcas de arranhões e hematomas enegrecidos, que lembravam mordidas. O garoto foi virado de costas, pois era de lá que a maior parte do sangue vertia. Para espanto de todos naquele cômodo, algo sobrenatural, definitivamente, estava presente entre eles. Nas costas do rapaz, um grotesco desenho figurava em sangue, marcado como se fosse uma tatuagem mal feita. Uma enorme cruz de ponta cabeça terminava na altura da cintura de Dimitri, onde se lia a palavra, PORCO.
Uma das empregadas se benzeu várias vezes e saiu do quarto em disparada. Os olhos arregalados dos demais criados davam a exata noção do pavor que aquela cena produzia em suas cabeças. Verônica não acreditava no que via. Um potente trovão espocou lá fora anunciando a chegada de uma nova tempestade. O médico aproximou-se da mulher e disse em seu ouvido:
- Verônica, creio que meus conhecimentos médicos não sejam mais eficazes neste caso. Você precisa procurar um padre com urgência – finalizou, colocando a mão sobre o ombro da desconsolada mãe.

Por sugestão do médico, Verônica pediu aos empregados que amarrassem os braços e pernas de Dimitri na cama, além de providenciar para que o quarto fosse devidamente limpo, assim como as roupas do filho fossem trocadas. Antes de sair, o médico fez os curativos nos machucados do rapaz, da melhor forma que era possível, além de receitar alguns potentes tranqüilizantes evitando, num primeiro momento, que os ataques de Dimitri voltassem.
Verônica acompanhou o médico até a porta, depois sentou-se sozinha na sala. Uma das empregadas trouxe-lhe uma xícara de chá e alguns biscoitos numa bandeja prateada. A mulher mal tocou no lanche, mas pediu à criada que trouxesse sua bíblia, além de solicitar que um grande crucifixo de madeira, que ficava preso acima da porta de entrada da casa, fosse preso na parede da cabeceira da cama do filho.
Ao fixar a cruz na parede, o criado teve a certeza de ter ouvido um rosnado grosso como o de um cão enfurecido, mas ao olhar para Dimitri, este permanecia dormindo profundamente.
A noite já havia chegado juntamente com a chuva torrencial que insistia em cair do céu. Verônica voltou ao quarto de Dimitri apenas para averiguara se o filho continuava repousando, e ao certificar-se disto, voltou à sala e leu mais alguns trechos da bíblia, buscando algumas respostas para o que estava acontecendo com seu único filho. Decidiu ir à primeira hora do dia seguinte pedir ajuda ao padre da igreja matriz; assim, em meio ao medo e pensamentos, acabou por cair no sono na poltrona da sala.

Como de costume, o dia amanheceu carrancudo e sem previsão de sol. Verônica acordou cedo, após um sono surpreendentemente pesado. Chamou um dos criados e subiu com ele ao seu quarto; procurou por sua câmera fotográfica e partiu para o quarto do filho. Dimitri permanecia num sono intenso e aparentemente tranqüilo. Não fosse pelas marcas no corpo do filho, e principalmente em seu rosto, que o deixavam envelhecido e com um aspecto repugnante, além do pesado cheiro de podridão que pairava naquele cômodo, nada poderia confirmar o que se havia se passado naquele quarto no dia anterior. Com a ajuda do empregado, Verônica tirou várias fotos do corpo do filho; seu rosto, braços e principalmente suas costas, de onde ainda se via aquelas aterradoras marcas. Saiu da mansão recusando tomar seu desjejum oferecido por uma das criadas que era a mais assustada com tudo o que havia presenciado. Talvez por este motivo, Verônica ordenou que a empregada a acompanhasse para confirmar a história improvável que teria de relatar ao padre.
Estacionou o automóvel em frente à igreja e dirigiu-se aos fundos da matriz, onde ficavam os aposentos do Padre Calvin. O padre, famoso por seus sermões entusiasmados, era muito requerido por toda a comunidade. Tinha um apreço especial por Verônica, pois sabia das dificuldades emocionais que a mulher passara após o sumiço do marido.
Padre Calvin atendeu à porta ainda com a barba por fazer e com cara de que havia acabado de acordar. Apesar de estranhar a visita naquele horário, ainda mais num dia de semana, quando normalmente não havia missa, mandou que Verônica e a acompanhante entrassem. Sentaram-se em volta de uma mesa de madeira de fórmica branca, e Verônica começou a contar toda a história ocorrida no dia anterior. Entre pausas onde a mulher não conseguia conter o choro, e era consolada pelo padre e pela empregada, conseguiu terminar de contar toda a tragédia que se abatera dentro de sua casa. Mostrou as fotos ao padre e de tempos em tempos pedia a confirmação dos relatos para a criada. Padre Calvin ouviu tudo atentamente e não a interrompeu em nenhum momento. Viu todas as fotos apenas limitando-se a erguer as sobrancelhas ao ver as costas de Dimitri. Não havia dúvidas para o velho e experiente padre: tratava-se de uma possessão demoníaca.
Gentilmente, Padre Calvin preparou um café para as mulheres e enquanto ambas se serviam, pediu licença para se aprontar. Fez a barba e tomou um rápido banho. Vestiu-se com a batina e uma faixa roxa, ornamentada com uma cruz dourada nas pontas. Foi até a sacristia e voltou com uma bolsa de couro preta nas mãos. No caminho até a casa de Verônica, Padre Calvin tentou explicar que situações como aquelas não exigia motivo para acontecer. Por mais que fossem muito escassos estes casos, Padre Calvin era um profundo conhecedor de circunstâncias como aquelas. O homem era um estudioso de todos os desígnios da igreja. Adiantou que não ia praticar um exorcismo solene em Dimitri, pois além de ter o primeiro contato com o rapaz nestas condições, se realmente entendesse que seria necessário tal ritual, precisaria antes de uma autorização do arcebispo.

Sem querer esperar mais, Padre Calvin pediu à Verônica que o levasse ao quarto do filho. Nos últimos degraus da escada, o homem apoiou-se no corrimão dourado, levado por uma repentina vertigem. Recuperou o equilíbrio e apenas acenou para Verônica confirmando que estava bem. No corredor, já sentiu o fedor característico de situações como aquelas. O cheiro rançoso entrava pelas narinas e embrulhava o estômago do padre, que levava a faixa pendurada no pescoço ao rosto para tentar evitar o choque do ar nauseabundo que infestava o local. Por pior que fosse, Verônica parecia já ter se acostumado com aquela atmosfera repugnante que tomava todo o andar de cima de sua casa.
Padre Calvin abriu a porta do quarto e se deparou com a figura do rapaz amarrado por retalhos de toalhas que eram grossas o suficiente para conter o ímpeto de Dimitri no caso de mais um ataque. Sem receio, o padre sentou-se ao lado do garoto na cama. Observou o estrago feito no rosto de Dimitri; a pele repuxada; os vincos profundos dos cortes na testa; as pústulas que dessoravam na face; as marcas roxas dos hematomas contrastavam com a pele alva, que agora adquiriam um tom azulado diante das veias que pareciam latejar no corpo franzino do rapaz; o cabelo ensebado pelo suor, resultado dos acometimentos de Dimitri. Nada daquilo lembrava o garoto calmo e amoroso que o próprio Padre Calvin conhecera e vira muitas vezes nas missas dominicais. O homem levou a mão direita sobre a testa do rapaz e fez o sinal da cruz com o polegar. O garoto pareceu remexer-se na cama incomodado com o ato, mas não abriu os olhos. O padre virou-se para a empregada que os acompanhara no trajeto e pediu a ela que buscasse sua maleta deixada na sala de estar. Quando o Padre Calvin voltou para olhar Dimitri, foi surpreendido por uma escarrada na fronte. O líquido viscoso desceu por seu nariz, enquanto o rapaz gargalhava numa voz que na verdade era a soma de dezenas de vozes diferentes. Os lábios secos e cortados do rapaz eram repuxados para baixo numa careta medonha. Entretanto seus olhos eram ainda mais apavorantes. Sobre uma olheira escura, os olhos de Dimitri não possuíam mais íris. Estavam totalmente negros, profundos e ameaçadores. As vozes que saiam da boca do rapaz, novamente não faziam nenhum sentido. Palavras estranhas em idiomas não conhecidos, que ainda assim, pareciam mudar a cada frase.
Padre Calvin virou-se para Verônica e sua criada que permaneciam à porta:
- Rápido, minha maleta!
A empregada desceu as escadas rapidamente e na volta foi seguida pelos demais empregados da mansão.
As luzes da casa começaram a piscar e a chuva lá fora continuava a cair impiedosa. O vento assoviava uma sinfonia macabra, e com força abriu as abas das janelas de madeira que batiam com estrépito no quarto, fazendo as cortinas voarem, deixando um aspecto ainda mais assustador naquele ambiente.
Padre Calvin tomou a maleta das mãos da criada, e de lá tirou sua bíblia, uma cruz prateada, um frasco de água benta, que colocou em cima de um armário baixo, além de um pequeno livro de capa preta escrito em latim.
Dimitri puxava os braços e as pernas forçando as tiras de toalha, que bem presas não ameaçavam romper-se. Mesmo assim, o rapaz se debatia convulsivamente, babando e urrando como um animal acorrentado.
Verônica chorava copiosamente abraçada a uma das criadas. Os demais empregados ficavam na ponta do pé para assistir aquela cena aterradora, mas não tinham a coragem de adentrar ao quarto. Padre Calvin aproximou-se de Dimitri e encostou a cruz de prata na testa marcada do rapaz, enquanto ele tentava morder o braço do homem. Dimitri gritou tão furiosamente que os vidros das janelas e o espelho da cômoda no quarto espatifaram-se no ar, espalhando seus cacos pelo chão. O rapaz cuspiu novamente no padre, e uma gosma amarelada grudou em sua batina, descendo lentamente pela vestimenta. Padre Calvin ficou em pé, de frente a Dimitri, aos pés da cama. As abas de madeira da janela batiam furiosamente, enquanto a chuva entrava no quarto por onde não havia mais vidro. As cortinas esvoaçavam no ar como se fossem espectros fantasmagóricos, e o vento continuava sua melodia sombria. Apesar de ser dia, o tempo lá fora era terrivelmente escuro sob as grossas e assustadoras nuvens.
Padre Calvin pediu que Verônica e os empregados o acompanhassem numa prece em voz alta suplantando os guinchos e urros do demônio que dominava Dimitri. O conjunto de vozes conseguia sobrepujar os reclamos do rapaz, que, ensandecido, continuava proferindo palavras sem sentindo, e tentando a todo custo soltar-se das amarras na cama. Após o termino da oração, o padre fez-lhe a primeira pergunta:
- Quem é você?
Dimitri parou por um momento de tentar se desvencilhar das cordas de toalha e olhou diretamente para o padre. Com um sorriso de escárnio respondeu numa língua ininteligível. De imediato, o padre reconheceu o fenômeno da xenoglossia.
- Na minha língua! – ordenou o padre.
Dimitri olhou para a porta onde estava a mãe e todos os criados atônitos. Voltou o olhar ao padre e respondeu;
- Eu sou o antigo. Sou a desgraça. Sou o imundo. Sou todos – cada uma das respostas era feita por uma voz completamente diferente. Todas desconhecidas e assustadoras.
- Aqui não há nada pra você – disse o padre com a cruz de prata erguida em frente ao peito. – Eu ordeno que vá embora e deixe o corpo desse filho de Deus.
- Não irei, padreco – disse a coisa de dentro do corpo de Dimitri. – Esse porco é meu!
- NÃO! – gritou o padre. – NADA NESTE MUNDO LHE PERTENCE – continuou ele, elevando a cruz acima da cabeça. – PELO PODER INVESTIDO A MIM POR NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E PELA SANTA SÉ, EU ORDENO QUE DEIXE ESTE CORPO IMEDIATAMENTE!!!
Uma gargalhada debochada surgiu de dentro da boca do demônio e se espalhou pelo quarto ensurdecendo todos ali presentes.
- VOCÊ NÃO ME ORDENA NADA, SEU FILHO DA PUTA – neste momento a amarra da perna esquerda de Dimitri arrebentou-se. – EU DISSE QUE ESTE PORCO É MEU!!!
As luzes piscavam no teto incessantemente; as janelas batiam com tanta força contra o umbral, que os pedaços de madeira arrebentados já pendiam pouco a pouco. Os trovões estouravam no céu. As cortinas já encharcadas pela chuva pouco se moviam com a ação do vento.
Padre Calvin abriu o pequeno livro de capa preta e começou a falar em latim:
- “ADJURE TE, SPIRITUS NEQUISSIME PER DEUM OMNIPOTENTEM”...
O poder que cada palavra possuía, parecia açoitar o corpo já dilacerado de Dimitri. O rapaz gritava desesperadamente, e pronunciava injúrias terríveis contra o padre, naquele mesma união de vozes horríveis. O vento entrava no quarto levantando papéis e derrubando objetos. A cruz de madeira que estava presa na parede acima da cama de Dimitri soltou-se do prego e voou em direção ao padre, que esquivou-se há tempo. O crucifixo cravou-se na parede oposta e ficou de ponta cabeça. Conforme a oração do padre parecia chegar ao final, sua voz se alterava ficando cada vez mais alta. Dimitri continuava a se debater, e assim conseguiu soltar a outra amarra da perna e arrebentou a corda de toalha do braço esquerdo. Padre Calvin pronunciou as últimas palavras da oração em latim aos berros, e após isso, jogou toda a água benta sobre o peito de Dimitri, que em contato com sua pele agiu como verdadeiro ácido. O corpo do rapaz agitou-se ainda mais, e seus dentes morderam os lábios que sangravam, escorrendo pelo queixo e pescoço. A lâmpada do quarto arrebentou-se no teto com o som grave do rugido do demônio em seu último golpe.
O vento lá fora pareceu serenar, ainda que a chuva continuasse a cair sem parar. Verônica buscou o abajur caído no chão e acendeu a luz parva, iluminando a cama destroçada do filho. Dimitri estava desfalecido no colchão empapado em suor e sangue. Padre Calvin era um arremedo do homem que chegara àquela casa há algumas horas atrás. Os empregados da casa olhavam para Dimitri estendido na cama, sem acreditar que aquele pesadelo havia terminado. O padre sentou-se no chão e beijou a cruz prateada. Verônica aproximou-se, receosa, do filho e constatou que Dimitri respirava normalmente. Colocou a mão sobre a testa machucada do filho. O rapaz abriu os olhos. Os seus olhos. Olhos verdes ainda que maculados com veias vermelhas.
- Mãe?! – disse o rapaz quase num sussurro.
Verônica abraçou o filho e chorou de alegria e alivio.

Com a ajuda dos empregados, Dimitri se levantou, tomou um banho e tentou se alimentar. Verônica mandou que arrumassem outro quarto para o filho repousar. Ligou para o médico da família, pois apesar do pesadelo ter chegado ao fim, as marcas no corpo do filho ainda eram evidentes. Ordenou para que um dos criados permanecesse ao lado do filho para qualquer coisa que o garoto precisasse. Fez companhia ao padre numa xícara de chá, enquanto ouvia o clérigo pedir a ela, para que mantivesse todos aqueles acontecimentos em segredo, uma vez que havia praticado um exorcismo sem a autorização de seus superiores. Verônica, obviamente atendeu ao pedido do padre, e estendeu a ordem aos empregados.
A chuva deu uma trégua naquele final da tarde, apesar do céu carrancudo. Verônica acompanhou o padre até a porta, uma vez que este preferiu pedir um táxi, e refutou o oferecimento de carona. O carro chegou e estacionou do outro lado da rua. Verônica agradeceu ao padre, lhe deu um longo abraço e um beijo no rosto. Padre Calvin apenas deu um sorriso e se dirigiu ao táxi. No meio da rua, virou-se para a mulher na porta da mansão e fez um último aceno. Olhou para a janela do quarto de Dimitri que permanecia escura e estraçalhada. Sorriu para Verônica e voltou-se a caminhar em direção ao carro. Então, apenas ouviu-se uma freada brusca, e o cantar dos pneus de um caminhão desgovernado. O corpo do padre foi arremessado cerca de dez metros de distância, caindo morto no meio fio.

No dia seguinte finalmente raiou um imponente sol, e talvez, aquele fosse o prenúncio de novos e melhores tempos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A GAROTA E O LOBISOMEM



Autor: Flávio de Souza

A garota estava estirada sobre o tapete formado pelo gramado úmido e espesso, o cheiro da terra molhada a entorpecia. Olhava para o céu, já não chovia àquela altura, a lua mantinha-se escondida atrás das nuvens pesadas, não era o cenário ideal para encontrar aquele que procurava, não, não era.
Definitivamente ela sabia tudo sobre as suas preferências, era fato que ele apreciava o livre caminhar sob a luz daquela que o guiava. No entanto, mesmo oculta pelas nuvens, a rainha da noite estaria lá, presente e observadora, a musa que o mantinha vivo, e este fato seria reconhecido pelo seu instinto aflorado.
Assim era ele, aquele que corria ao relento. A garota sabia que era seu dever permanecer onde estava, apertando a grama e a terra com seus dedos nervosos, mantendo contato com a natureza, com os estranhos elementos que constituem a essência do que não é compreendido, mais cedo ou mais tarde ele apareceria, e ela, aflita e ansiosa, estaria esperando.
O farfalhar nos arbustos que circundavam toda a extensão do parque isolado a alertava de que algo acontecia ao seu redor. Sua respiração era ofegante e ruidosa, ela não sentia o frio que o vapor expelido por sua boca sugeria, pelo contrário, um calor indescritível percorria todo o seu corpo, da cabeça aos pés descalços.
Ela se lembrava bem da primeira vez que o encontrara, naquela noite especialmente abafada, ela retornava da faculdade caminhando apressada pelas ruas do subúrbio, trazia em uma das mãos os sapatos de salto alto, pois estes a machucavam muito por serem novos. Ao cruzar a esquina perto das ruínas do velho curtume, deparou-se com cinco indivíduos que lhe bloqueavam o caminho. Olhou ao redor, nada havia além de jornais velhos pelo chão e latas de lixo encostadas no poste de energia elétrica, o qual apresentava a lâmpada quebrada, provavelmente para facilitar a ação dos que ali agiam.
A garota apertou os livros contra o peito e seguiu em frente, passando pelos homens que formavam um corredor, e ao passar por eles e dobrar o quarteirão, sentiu-se aliviada por nada de mal ter lhe acontecido, afinal. O alívio durou apenas alguns segundos, sentiu a alça de sua mochila ser puxada com violência, seus livros foram ao chão, mas, mesmo assim, não esboçou nenhuma reação, apenas olhava para o rapaz que revirava os seus pertences. Tentou seguir o seu caminho, mas fora impedida por um outro, um homem alto que trajava um casaco de moletom, o sujeito a agarrou pelos ombros e a jogou no asfalto sujo. Em seguida, os outros a seguraram, arrastando-a para o prédio abandonado, durante todo o percurso sofria agressões e xingamentos.
Uma viatura da polícia encostou ao lado do prédio abandonado, deveria checar a denúncia de que um crime estaria sendo cometido naquele local, uma testemunha presenciara toda a cena. Os homens da lei subiram até o segundo pavimento, de onde provinham ruídos estranhos, rapidamente cercaram e renderam os agressores com extrema facilidade, porque estes estavam armados apenas com os punhos e a covardia. A garota estava ferida, não só física, mas também emocionalmente, a violência a que fora submetida seria sua companhia pelo resto da vida.
Apontando o cano da pistola, um dos policiais orientou para que a moça se afastasse até um dos cantos do galpão. Lágrimas encharcavam os seus olhos, mas ainda assim, não deixou de notar as órbitas rubras que espreitavam sorrateiramente sobre as vigas de aço que transpassavam todo o ambiente.
Uma gosma esbranquiçada caiu sobre um dos marginais, fazendo com que o seu olhar desviasse em direção ao teto, e o fato fora acompanhado por todos. O grito do homem fora sufocado pela mordida que lhe arrancou a metade do rosto, os policiais descarregavam todo o poder de fogo que dispunham sobre a fera que se alojava sobre o bandido. A munição não fazia o menor efeito sobre o demônio revestido de pêlos, nada causava a ele, além de tornar sua irritação ainda mais evidente. A besta saltava sobre os homens usando as garras para abrir sulcos profundos na pele de uns, e utilizava, também, a força de sua mandíbula para desmembrar outros. Há muito tempo não se trabalhava o couro naquele lugar, mas a carne e os ossos daqueles homens recebiam especial atenção naquela noite.
Foram necessários apenas alguns minutos para que o grande lobo devorasse os sete homens com uma fúria incontrolável. Encostada em uma pilastra, a garota assistia a tudo, incapaz de esboçar qualquer movimento. Percebendo a sua presença, a besta olhou para ela, abriu a bocarra e emitiu um uivo longo e perturbador, para em seguida saltar pelo vão aberto do que um dia fora uma janela.
De uma forma bizarra e macabra, a jovem não se compadecia pelos policiais que morreram tentando salvá-la, pois, de acordo com o que pensava, eles nada fariam com os agressores além de prendê-los, e estes, escorados pelas brechas da justiça, logo estariam livres para cometer outras atrocidades contra mulheres como ela. Não, ela achava que eles estavam melhor assim, mortos, e quem de fato tornara-se capaz de proporcionar essa sensação de justiça fora a fera hedionda, ainda que para isso tenha sido necessário o pagamento através do sacrifício da carne e do sangue dos homens da lei.
A adrenalina brotava pelos poros, o suor escorria pela palma das mãos, ouvia o ruído de algo se aproximando, fechou os olhos. Ao abri-los visualizou um rapaz com uma garrafa de vidro quebrada, ele a ameaçava. Ela colocou-se sentada, suspirou e olhou para o mato às costas do garoto. Este, desconfiado e sem entender, desviou o olhar para o objeto de interesse de sua vítima.
O pavor percorreu-lhe o corpo inteiro. A fera postada em duas patas passava fácil dos dois metros de altura, dentes à mostra e fúria incontida. Antes que pudesse produzir um pensamento, sentiu o peso do demônio que havia saltado sobre o seu corpo, gritou, mas depois disso apenas o som dos ossos sendo triturados ecoava, e este soava como música para a garota.
Desde o primeiro encontro, ela havia se especializado em trazer vítimas para o seu salvador, e este agradecia pelo alimento fácil. Apenas algumas mordidas foram necessárias para eliminar o corpo franzino do garoto. Um uivo aterrador fora ouvido por todo o parque. A fera olhava para a jovem, e esta reconhecia a gratidão nos olhos do animal, nunca fora tão fácil para ele conseguir o sustento em uma cidade onde o seu caminhar oculto tornava-se cada vez mais difícil.
Sobre quatro patas a besta aproximou-se para um afago, queria sentir o toque da amiga, pensava a garota. Ela sorria para o demônio, mas logo o seu sorriso fora substituído pela surpresa, pelo espanto e principalmente pela dor.
Uma violenta patada a jogou longe, em seguida sentiu o peso do corpo peludo da fera aprisionando-a, o hálito quente entrava por suas narinas e queimava seus olhos. Desesperou-se quando sentiu os dentes afiados abrindo caminho através de sua pele e músculos, não teve tempo para chorar, porque a fera a devorava, movimentando a mandíbula apressadamente e arrancando pedaços de sua frágil carne, logo a morte lhe abraçou.
Finalizando a refeição, a fera olhou para a lua, rosnou e seguiu seu caminho. É preciso entender que é impossível domesticar alguns animais, a fera apreciou a refeição fácil por alguns instantes, mas a caçada fazia parte de sua natureza. No final o instinto comanda a fome, bestas não pedem conselhos, demônios não fazem amizade, feras dominam e matam, e a garota aprendeu tudo isso da pior forma possível e para seu azar já era tarde demais.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ÓTIMA NOTÍCIA PARA A LITFAN DE TERROR NACIONAL



Amigos (as), para minha total surpresa e satisfação pessoal, tive nesta semana, uma notícia que me deixou muito orgulhoso. A Câmara Brasileira de Jovens Escritores promoveu pela primeira vez neste fim de ano, a edição “Panorama Literário Brasileiro 2009”, na categoria “Contos”, pois na categoria “Poesias”, a editora já está em sua sexta edição.
O Panorama Literário 2009 selecionou os melhores contos publicados em todas as suas antologias lançadas no ano corrente. No último mês de janeiro, tive meu conto, intitulado, ”Encalço Noturno”, publicado na “Seleta de Contos de Autores Brasileiros Contemporâneos”, e foi exatamente este texto que foi eleito um dos melhores de 2009, e assim, será republicado, numa edição histórica lançada pela editora.
A eleição para os melhores do ano contou com uma comissão julgadora que envolveu sociólogos, escritores, jornalistas, professores, pedagogos, críticos literários e advogados.
Meu contentamento vai além da eleição propriamente dita, pois o Panorama Literário abrange contos de todos os gêneros literários, e meu conto é sabidamente do gênero fantástico, especificamente do subgênero terror, e isto me alegra ainda mais, uma vez que, este gênero é tão discriminado no âmbito literário.
Esta é mais uma prova de que os “militantes” da litfan nacional de terror estão no caminho certo, e acredito que isto nos motive a escrever cada vez mais e melhor, pois o reconhecimento certamente virá.
Abraços.

Lino França Jr.


Acompanhe abaixo as disposições no site da editora:

As MELHORES OBRAS de 2009

O Panorama Literário Brasileiro é um documento histórico.
Ele registra os melhores trabalhos inscritos para as seletivas da CBJE
a cada ano, segundo avaliação do Conselho Editorial da CBJE/RJ,
e também - tal como ocorre desde 2004 - segundo a opinião dos leitores.
Neste ano de 2009, além de publicarmos o Panorama Literário de Poesias
(pelo 6º ano consecutivo), com as melhores poesias de 2009, estamos, também, publicando, pela primeira vez, a versão do Panorama Literário de Contos,
com os melhores contos publicados nas Antologias da CBJE.
Lançamento:
dezembro de 2009
Edição Limitada
Sobre o processo seletivo:
1 - Para estas edições, o Conselho Editorial da CBJE seleciona 500 poemas (como fazemos há 6 anos) e 150 contos dentre todos os inscritos nas nossas seletivas no período novembro 2008/outubro 2010 e submete-os à Comissão Permanente de Avaliação que atribui notas de 50 a 100 para cada obra (poesias e contos). Cada autor só tem 01 poema e/ou 01 conto inscrito neste processo. Os procedimentos são os mesmos aplicados desde a primeira edição do PLB (2004/2005).
2 - São também criados 6 grupos de leitura, cada um composto de 10 leitores, em média - escolhidos a critério dos coordenadores de grupos - e que atribuem notas de 10 a 50 para cada trabalho, utilizando exclusivamente o critério de gosto pessoal.
Nota: as laudas distribuídas para votação contêm apenas o poema, ou conto, e um número identificador; os nomes dos autores são omitidos para evitar qualquer tipo de influência no julgamento.
3 - Cada uma destas obras finalistas é avaliada por 4 membros da Comissão de Avaliação e por mais 20 leitores (Grupos de Leitura), sem que qualquer jurado tenha acesso às notas atribuídas pelos demais.
4 - Computados os totais, são classificados os que obtiverem as melhores pontuações.



Comissão de avaliação para as edições 2009/2010:

Arteiro de Miranda - sociólogo e escritor
Arthur Henrique dos Santos - jornalista e escritor
Bruna Galla - jornalista
Carina Rodrigues - professora e tradutora
Fernanda Redon - pedagoga
Leonardo Ach - jornalista
Leo Martins - professor e crítico literário
Milena Patricia Ramos - advogada

Coordenadores dos grupos de leitura:
Alexandre Campos - editor de arte
Diego Hermann - psicólogo
Wagner Lazaro- professor
Marlene Ribeiro - auditora fiscal
Rodrigo Tedesco - aeroviário
Waltencyr de Mello - ator
Coordenação do Projeto:
Luiz Carlos Martins - Cons.Editorial da CBJE
Supervisão:
Gláucia Helena - Pres. Cons. Adm. da CBJE
Editor-executivo:
Georges Luiz - Editor da CBJE

Especificações da obra:
Livro no formato 14x21cm - 130pp
Miolo em papel offset 90g
Capa em policromia, plastificada,
com orelhas
Fino acabamento
Arte da capa: Paola Benvenutti


http://www.camarabrasileira.com/panorama2009conto.htm

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ASSUNTO ENTERRADO




Autor: Lino França Jr.



Fim de tarde. Nelson já tinha feito jus ao seu minguado salário daquele mês. Naquele dia em especial foram três enterros. Três covas para se abrir. Três covas para se fechar. Será que havia algum serial killer nas redondezas? Não. Era apenas coincidência. Mas justamente naquele dia, em que o sol estava inclemente, teve o trabalho de um mês inteiro. Os músculos estavam doloridos. A barriga roncava. Queria ir embora logo. A mulher, certamente, já estaria preparando alguma refeição para tapar o buraco do estomago. Mas o dia de trabalho ainda não findara.
Passou pela alameda dos endinheirados, onde os sepulcros de mármore eram cheios de frescura: querubins e santos de bronze, enfeitados com flores naturais que eram trocadas de dois em dois dias, e mais limpos do que o chão de sua própria casa.
Ao passar por um dos jazigos, onde repousava uma senhora de cabelos bastos e brancos, numa sepultura de azulejos negros que reluziam em contraste com o finzinho de sol que ainda brilhava no firmamento, Nelson ouviu aquela voz estridente às suas costas:
- Seu Nelson – chamou o homem – Por favor, Seu Nelson.
O coveiro virou-se e ameaçou um sorriso amarelo.
- Pois não, Seu Marcos. – respondeu
O atarracado homem usava um terno bege surrado. Dava a impressão que um dia o terno fora branco, mas de tão usado e mal lavado adquiriu aquela coloração amarelada. Marcos era o administrador do cemitério municipal. Quase nunca vinha até o fúnebre lugar, mas sempre que o fazia, trazia consigo alguma perturbação.
- Então, Seu Nelson, estamos com um problemão – disse o homem olhando em volta, como se procurasse alguma alma penada. – O senhor acredita que recebemos uma denúncia lá na prefeitura, de que profanaram uma das sepulturas aqui do cemitério? – disse o administrador.
Nelson franziu o cenho e não disse nada esperando que o homem continuasse.
- Recebemos a tal denúncia de forma anônima, dizendo que o corpo daquela menina que foi assassinada na semana passada, foi violado pelo próprio assassino que é envolvido nesses negócios de magia negra, e pra concluir a tal da magia, precisava do corpo da defunta de novo – finalizou o homem balançando a cabeça negativamente, em sinal de reprovação.
- Não é possível, Seu Marcos. Eu ando por todo o cemitério o dia inteiro e se houvesse alguma coisa estranha, e o senhor pode ter certeza que um corpo desenterrado é algo muito estranho pra mim, eu teria notado.
- Eu imagino, mas sabe como é, Seu Nelson, são ossos do ofício – disse o homem colocando a mão no ombro do coveiro. – Temos de ter certeza. É preciso checar – sentenciou, Marcos.
O coveiro arregalou os olhos querendo imaginar o que o homem queria dizer com: “É preciso checar”.
O administrador mostrou o lugar ao coveiro, como se este precisasse de instrução para localizar alguma sepultura. Nelson era mestre em enterrar defuntos, mas pela primeira vez teria de fazer o contrário. No seu íntimo, pensava que aquilo poderia lhe trazer algum mau agouro. O homem passava mais tempo dentro daquele cemitério do que na própria casa. Não havia um só jazigo que ele não soubesse a quem pertencia. Era
óbvio que se houvesse ocorrido algo de anormal ali, principalmente algo tão evidente, como a violação de um dos túmulos, Nelson, certamente daria pelo acontecido. Além disso, o ofício de cavar e encher as tumbas, não era trabalho que qualquer um poderia fazer sem deixar rastro.
Entretanto, por mais absurdo que fosse a ordem dada por Marcos, ele estava ali apenas para cumprir o que lhe mandavam fazer.
Pá nas costas e má vontade para descobrir o que já sabia. A defunta estaria lá, com seu vestido branco e cercada por flores murchas e tão mortas quanto ela, descansando em seu sono eterno.
A garota não era de família abastada como as dos sepulcros que ficavam na parte alta do campo-santo. Em seu último reduto de repouso, apenas uma lápide que continha uma foto mal tirada, onde se destacavam os olhos grandes e de um azul profundo, e as datas de nascimento e morte da garota. Um vaso gasto com flores de plástico servia como adorno.
Nelson bufou e olhou uma última vez para o chefe, na esperança que este mudasse de idéia, mas de nada adiantou. Seria um trabalho árduo e sem fundamento, mas quanto mais rápido o fizesse, mas rápido poderia ir pra casa encher a pança com a gororoba da patroa.
O sol já havia se deitado, e a penumbra invadia aquele recinto de descanso. Uma tênue névoa cobria o chão. O ruído dos insetos e o coaxar dos sapos lembravam uma sombria sinfonia que servia como trilha sonora para aquela empreitada sinistra.
Bateu o instrumento no solo já endurecido. Sete palmos de terra, como o de costume. E então, começou a cavar sob o olhar penetrante do chefe, que coçava o queixo, como se apreciasse aquele momento de excitação pelo desconhecido, pelo macabro. No fundo, Marcos nutria a esperança de que aquela história fosse verdade, pois seria algo de novo e realmente importante para a pacata cidade, e principalmente para sua vida tediosa e desestimulante. A cada porção de terra vermelha que subia pelo ombro do coveiro, sua inquietação aumentava. Talvez por isso Marcos não tenha sido capaz de notar as mudanças que ocorriam em seu funcionário.
Nelson continuava a cavar mecanicamente. Ato tão natural a ele não fosse pelo presente objetivo. Depois dá terceira pá de terra tirada do sepulcro da garota assassinada, um formigamento começou a subir pelas mãos, correndo pelos braços e atingindo seu pescoço e cabeça. Os nervos do corpo do homem tremiam e suas feições sofriam alguma espécie de mutação. Esboçava um sorriso na boca de lábios finos, que mais parecia um esgar feio. Os olhos se reviravam nas órbitas e um arrepio gelado subiu pelas costas e se espalhou pelas costelas. Nelson não tinha mais controle sobre seu corpo, sobre sua mente. Nelson não era mais ele mesmo. Sua carcaça cansada servia agora de suporte para outra alma. Uma alma penada e aflita. Uma alma em busca de paz. Uma paz que só viria através de vingança.
Um som oco foi ouvido por Marcos que assistia ao homem trabalhar com eficiência incrível. Lá estava a esquife de madeira coberta por aquilo que havia sido uma coroa de flores simplória. Marcos esfregou as mãos como se estivesse à espera de um presente há muito aguardado. Um sorriso indecente marcava-lhe a face. As imagens começavam a voltar em sua mente perturbada. Primeiro a imagem da garota caminhando por uma viela erma. Depois o convite para a carona, que fora aceito ingenuamente. A confusão de imagens na cabeça de Marcos, agora adentrava ao quarto de seu apartamento fétido. A garota, de olhos azuis brilhantes, chorava copiosamente no canto do cômodo empoeirado. Seguiu-se o espancamento, o estupro, e enfim o estrangulamento, dando cabo à vida da garota.
Com as lembranças reavivadas na mente, Marcos também não se deu conta de que Nelson se afastara da cova recém aberta. A escuridão imperava nas vias estreitas e sinistras do cemitério, e Marcos não conseguiu mais enxergar o funcionário que aparentemente se evadira dali com medo da assombração da garota que teria seu sono eterno interrompido. Marcos sorriu novamente, as coisas caminhavam bem melhor do que o plano inicial traçado por ele. Colocaria novamente as mãos na pele lisa e alva da garota, e mais, tomar-lhe-ia o corpo com devassidão, e assim poderia satisfazer seus desejos macabros outra vez. Marcos pulou pra dentro da cova apoiando os pés nas laterais da catacumba. Bateu com o punho em uma das abas laterais do caixão que soltou-se produzindo um som abafado, deixando escapar uma fumaça esbranquiçada. Cada segundo que antecedia o reencontro da vítima com seu assassino, excitava ainda mais o monstro doentio. Marcos enfiou os dedos compridos por debaixo da tampa do ataúde e o puxou de uma vez. Os olhos do homem chisparam de ódio ao encontrar o vazio dentro do caixão acolchoado. Seu espanto foi ainda maior quando ouviu passos vindos de cima da cova. Olhou para cima, onde a lua cheia cintilava majestosa. Aos poucos, Marcos percebeu a imagem de Nelson que cobria o globo lunar, numa espécie de eclipse. O coveiro exibia uma expressão de fúria que contrastava com belíssimos olhos azuis e radiantes, que não pertenciam a ele, mas que foram prontamente reconhecidos pelo assassino.
A pancada seca da pá que Marcos sentiu na nuca o derrubou de imediato. O sangue quente desceu pelo pescoço, e o homem caiu perfeitamente encaixado no esquife desocupado. Seus olhos vidrados encontraram mais uma vez o azul sereno nas órbitas de Nelson, que, entretanto, brilhava de satisfação. Marcos ainda assistiu, petrificado, o coveiro fechar a tampa do caixão, além de ouvir as primeiras pás de terra deslizando por cima do ataúde.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

DICA DE LITERATURA




Para os fãs de Literatura Fantástica, e atraídos por histórias cheias de aventura, magia, ação, e muito mistério, convido-os à conhecer: LOHAN E OS MISTÉRIOS DA MAGIA, de Marco Aurélio Paz. (Editora Novo Século).

Sinopse:
O aprendizado mal começou e Lohan obriga-se a enfrentar perigos que nem mesmo os mais experientes magos se atreveriam a subjugar. Como aprendiz de mago, Lohan descobrirá que para conseguir atingir seus objetivos terá que vencer o tempo, ganhar feridas, perder o fôlego, lutar para manter a sanidade e arriscar a vida, que é tudo que mais deseja devolver ao seu mestre. A busca pelo saber e pela superação está apenas começando neste primeiro volume da série. Conheça os magos, guerreiros, criaturas gigantes e outros seres deste mundo peculiar e selvagem, onde a força e a magia ditam as regras.