
Autor: Lino França Jr.
Final de agosto. O afluxo de tempestades naquele meio de estação ao sul do país parecia não ter fim. O sol dificilmente vencia a muralha de grossas nuvens cinzentas que insistiam em permanecer sob o firmamento, tirando, aos poucos, a esperança do povo por dias melhores. Coincidência ou não, o período em que o astro-rei deixou de fulgir na abóbada celeste foi de infortúnios, não só em nosso país, mas de modo geral a impressão que se tinha, era que o mundo caminhava, a passos largos, para os seus últimos dias. Uma nova e mortífera doença fora descoberta por cientistas americanos, e a peste se espalhava pelo planeta em níveis alarmantes, disseminando assim, grande parte da população. Países vizinhos declararam guerra no Oriente Médio, por motivos de particularidades que só a eles cabiam, e que o restante do mundo não conseguia entender. Terríveis desastres ecológicos explodiam em todos os continentes. O resultado disso era facilmente notado pelas doenças respiratórias que se alastravam entre crianças e adultos. Um colapso econômico varreu os empregos de metade da população, fazendo com que os números de atos de vandalismo, roubos e assassinatos subissem em profusão. Enfim, estávamos muito perto do caos.
Em sua bela mansão de doze quartos, Verônica estava alheia às adversidades do mundo. Ela tinha e vivia seu inferno próprio. Após o sumiço do marido, a bela mulher de quarenta e poucos anos, agarrou-se ao que mais lhe poderia causar felicidade, se é que esta palavra ainda tivesse sentido em seu dicionário particular. Dedicava todo e qualquer esforço na criação do filho, Dimitri. O rapaz de dezesseis anos era esperto, excelente aluno e ótimo atleta. Amado pelos amigos e familiares, tinha irrefutáveis qualidades, que agradava à todos. Desgraçadamente, após a perda do pai, o rapaz transformou-se de tal forma, que os mais próximos diziam que não se tratava da mesma pessoa. Dimitri vivia isolado do mundo. Perdeu o gosto pelas boas e simples coisas da vida, e evitava o contato com aqueles que outrora viviam constantemente em seu círculo de amizades. Aos poucos, o garoto foi ficando enclausurado, por conta própria, em seu espaçoso quarto no segundo andar da mansão.
Além do vazio, a casa era habitada por sua inconformada mãe, e meia dúzia de empregados que pouco tinha o que fazer no lugar. Mesmo assim, Verônica fazia questão que tudo em sua residência exalasse nobreza, amor, alegria, coisas que já não existia em sua vida há tempos. Desta forma, cobrava dos empregados que todas as suas atividades diárias fossem realizadas com esmero.
Foi num domingo chuvoso que Verônica começou verdadeiramente a preocupar-se com o único filho. Nas raras vezes em que o rapaz era visto pela casa, exibia marcas arroxeadas pelo corpo, das quais ele não sabia dizer as origens. Os olhos fundos e a pele extremamente branca, conferiam-lhe uma aparência fantasmagórica. Diante da falta de interesse pela vida, a mãe tentava a todo custo, mostrar ao filho que havia possibilidades infinitas de se buscar a satisfação pessoal. Entretanto, todos os seus esforços mostravam-se cada vez mais inúteis.
Foi naquela mesma noite que os acontecimentos bizarros começaram a assolar a vida naquela mansão. Entre breves cochilos e a insônia que insistia em lhe fazer companhia, Verônica ouviu os primeiros barulhos. Apurou os ouvidos e identificou sons de batidas surdas. Àquela hora da madrugada era improvável que algum dos criados estivesse realizando alguma atividade relacionada à casa. A mulher saiu do quarto e caminhou pelo amplo corredor, que exibia nas paredes fotos de um passado não muito distante, quando realmente havia uma bela família habitando aquela casa imensa. Seguiu os ruídos intermitentes e verificou que os sons vinham do quarto de Dimitri. Antes de entrar, ainda se deu ao trabalho de bater à porta evitando incomodar o filho:
- Dimitri querido, o que está havendo?
Nenhuma resposta.
As batidas continuavam a chegar aos ouvidos de Verônica que, preocupada, abriu a porta do quarto do rapaz sem mais esperar. Para sua consternação, o que se via no interior do cômodo fez seu coração disparar, e por alguns segundos sentiu as forças faltarem-lhe ás pernas. No centro do quarto, Dimitri encontrava-se completamente nu, com as mãos espalmadas de frente à parede, e com força absurda, batia a testa no concreto, fazendo o sangue espirrar para os lados. Verônica apressou-se em se aproximar do filho, e desesperada, tentou a tudo custo, afastar o filho da parede manchada de sangue num primeiro momento. Usando de toda a sua força, a mulher puxava com ambos os braços o peito do rapaz que mal sentia as investidas da mãe. Verônica gritava para que ele parasse, mas Dimitri não manifestava sequer um sinal de parar de estourar a cabeça na parede. A mãe, mais uma vez, gritou aflita:
- DIMITRI, PARE COM ISSO PELO AMOR DE DEUS!!!
O rapaz virou-se para a mulher com o sangue vertendo da testa e escorrendo por todo o rosto, deixando a face do garoto apavorante, como se estivesse usando uma grotesca máscara rubra. Dimitri fitou a mulher nos olhos e num sorriso debochado, apenas perguntou numa voz que não era a sua:
- Deus?
Num movimento rápido esbofeteou Verônica com as costas da mão, e depois disso, cerrou os olhos, caindo de joelhos e esparramando o corpo desnudo pelo chão frio.
Assustada, Verônica ergueu o filho com dificuldade nos braços, e o colocou sobre a cama. Desceu as escadas gritando aos empregados para que ligassem com urgência para o médico da família. Em menos de uma hora, todos os criados estavam de pé, e o doutor era recebido na porta principal, e levado apressadamente para o quarto de Dimitri.
Após ouvir o relato de Verônica, e de fazer um exame prévio no estrago na testa do rapaz, o médico ligou imediatamente para que uma ambulância viesse buscar o paciente para uma análise mais incisiva sobre o estado do paciente.
Já no hospital, o médico atestou um traumatismo craniano leve, mas o rapaz levaria inúmeros pontos no pouco de pele que sobrara em sua testa. Após três dias em observação, Dimitri teve alta e pode voltar para sua casa.
Durante o período de internação, Verônica evitou tocar no assunto com Dimitri sobre o ocorrido. Ele, por sua vez, mantinha o mesmo comportamento arredio e solitário. Apenas balbuciava poucas palavras e não fazia menção de perguntar o que estava fazendo no hospital.
Ao chegar em casa, Verônica acompanhou o filho até o quarto e após ajudá-lo a deitar-se, pela primeira vez lhe perguntou:
- Filho, você não se lembra do que aconteceu?
Dimitri mirou a mãe com seus olhos sem expressão, e respondeu em voz baixa:
- As vozes, mãe. Foram as vozes.
- Que vozes, filho? Vozes de quem? – indagou Verônica.
Mas aquelas poucas palavras foram as únicas proferidas pelo filho naquele dia.
Apesar de tantas perguntas sem respostas, Verônica estava mais tranqüila por ter o filho de volta sob o mesmo teto. Após um longo banho, deitou-se na cama e adormeceu quase que instantaneamente. Acordou sobressaltada no meio da madrugada, em meio a um pesadelo confuso do qual não conseguia se lembrar. A camisola de seda branca estava colada ao corpo em razão da transpiração. Levantou-se da cama e foi até a janela abrindo-a devagar. O ar frio da noite fez seus cabelos longos bailarem refrescando seu pescoço e colo, mas, ao aprumar os olhos em direção ao extenso jardim da mansão, vislumbrou uma sombra na mesma direção do quarto de Dimitri. O céu carrancudo anunciava a chegada de uma nova tempestade, e as pesadas nuvens deixavam a noite ainda mais escura. Por este motivo, era impossível para Verônica conseguir enxergar o rosto do misteriosa figura. A sombra do estranho era extremamente difusa; seus ombros eram largos e pontiagudos; talvez, pela posição em que ele se encontrava, pareciam duas enormes asas recolhidas. Um relâmpago brilhante rasgou o céu negro iluminando a face do desconhecido. Neste exato momento, a mulher sentiu seu sangue regelar ao reconhecer na figura parada no jardim de sua casa, o rosto deformado do filho. O trovão estourou forte do alto e fez com que Verônica voltasse a si depois do choque. A mulher saiu do cômodo e dirigiu-se ao quarto de Dimitri. Ainda no corredor, a poucos passos de distância foi que a mulher ouviu uma confusão de vozes que vinham exatamente do quarto do filho; diminuiu a passada tentando concentrar-se nas vozes, mas não foi capaz de identificar nenhuma palavra, sequer a língua que estavam falando. Aproximou-se da porta do quarto e a abriu evitando fazer barulho. Na cama, Dimitri dormia tranquilamente, ainda que uma esfumaçada luz fugaz saísse da direção do corpo do rapaz em direção à janela.
No final da tarde do dia seguinte, Verônica recebeu a visita do médico da família. Após uma breve conversa, ambos seguiram em direção às escadas a fim de ver Dimitri. Antes de chegarem ao primeiro degrau um estrondo ribombou nas pilastras de concreto da mansão. Assustada, Verônica, rapidamente, identificou que o barulho vinha do andar de cima da casa, mais precisamente, na direção do quarto do filho. Os dois subiram os degraus apressados. A porta do quarto de Dimitri abria e fechava com violência sem que ninguém estivesse próximo a ela. Um urro animalesco irrompeu do cômodo fazendo os pêlos da nuca do médico arrepiar-se. Verônica aproximou-se lentamente da porta, ao mesmo tempo em que esta se abriu de uma só vez e uma lufada quente e pesada passou pelos dois no corredor. Adentraram ao quarto e notaram que o cômodo recendia um forte cheiro rançoso de carne podre. A mulher levou as mãos sobre o nariz e sentiu seu estômago se contrair num espasmo. O médico vasculhou o lugar com os olhos procurando por seu paciente. Dimitri estava deitado de bruços no chão próximo à janela; vestia um pijama branco com listras, e em suas costas, largas marcas vermelhas manchavam o tecido. O médico ajoelhou-se e tocou o ombro do rapaz. Dimitri começou a debater-se violentamente; seu corpo todo parecia sofrer uma descarga elétrica; o rosto virado em direção da cama se contorcia e da sua boca escapava um grosso líquido amarelado. Verônica começou a chorar ao ver o estado do filho, já imaginando que aquela situação devia-se a alguma seqüela pelo traumatismo craniano sofrido pelo rapaz. O médico conseguiu, com muito custo, virar o corpo do rapaz e bateu levemente no rosto do Dimitri. O garoto abriu os olhos, mas suas íris estavam desfocadas; só era possível ver os globos oculares brancos do rapaz, marcados por sulcos profundos por debaixo das pálpebras molhadas de suor. Dimitri emitia palavras desconexas em idiomas dos quais nunca haviam chegado aos ouvidos do médico. O rapaz falava sem parar, mal respirando entre as estranhas frases proferidas. A cada frase, a voz de Dimitri se transformava de um agudo estridente, a um grave poderoso, e entre ambas, outras notas impossíveis eram atingidas pelas cordas vocais do rapaz. Verônica reconheceu de imediato as mesmas vozes ouvidas na noite anterior. O médico bateu novamente no rosto do rapaz, desta vez com mais força. Dimitri cravou as unhas no próprio rosto e puxou os dedos para baixo com força, rasgando a pele e fazendo o sangue surgir em abundancia pela face. Verônica abaixou-se próxima ao filho tentando inutilmente segurar suas mãos, o garoto parecia ter adquirido uma força descomunal, e com o braço esquerdo empurrou a mãe para trás, agarrando, em seguida, o pescoço do médico que começava a sufocar. Desesperada, a mãe gritou para os empregados que surgiram aflitos na porta do quarto, e com um esforço enorme, conseguiram soltar as mãos de Dimitri, arrastando o rapaz pelo chão, para depois colocá-lo em cima da cama. Seguro pelas pernas e braços, o rapaz não teve como continuar suas investidas. O médico, após conseguir sorver um pouco de ar, aproximou-se do garoto para algum novo exame, mas foi surpreendido com uma cusparada melosa no rosto, seguido por risada macabra, numa voz, que novamente, não lembrava em nada a de um garoto de dezesseis anos. Desta vez, foi Verônica que investiu contra o filho, largando a mão no rosto do rapaz que desta vez pareceu sentir o golpe, soltando os nervos enrijecidos e desfalecendo no colchão.
Verônica caiu em prantos diante daquele quadro de horror. Os criados não sabiam o que pensar, e apenas tentavam recobrar o fôlego depois de tanto esforço. O médico exibia as marcas dos dedos de Dimitri no pescoço. O homem pediu a ajuda dos empregados da casa para erguer o rapaz a fim de tirar-lhe a camisa. O tórax do rapaz estava totalmente marcado com feridas que sangravam, além de marcas de arranhões e hematomas enegrecidos, que lembravam mordidas. O garoto foi virado de costas, pois era de lá que a maior parte do sangue vertia. Para espanto de todos naquele cômodo, algo sobrenatural, definitivamente, estava presente entre eles. Nas costas do rapaz, um grotesco desenho figurava em sangue, marcado como se fosse uma tatuagem mal feita. Uma enorme cruz de ponta cabeça terminava na altura da cintura de Dimitri, onde se lia a palavra, PORCO.
Uma das empregadas se benzeu várias vezes e saiu do quarto em disparada. Os olhos arregalados dos demais criados davam a exata noção do pavor que aquela cena produzia em suas cabeças. Verônica não acreditava no que via. Um potente trovão espocou lá fora anunciando a chegada de uma nova tempestade. O médico aproximou-se da mulher e disse em seu ouvido:
- Verônica, creio que meus conhecimentos médicos não sejam mais eficazes neste caso. Você precisa procurar um padre com urgência – finalizou, colocando a mão sobre o ombro da desconsolada mãe.
Por sugestão do médico, Verônica pediu aos empregados que amarrassem os braços e pernas de Dimitri na cama, além de providenciar para que o quarto fosse devidamente limpo, assim como as roupas do filho fossem trocadas. Antes de sair, o médico fez os curativos nos machucados do rapaz, da melhor forma que era possível, além de receitar alguns potentes tranqüilizantes evitando, num primeiro momento, que os ataques de Dimitri voltassem.
Verônica acompanhou o médico até a porta, depois sentou-se sozinha na sala. Uma das empregadas trouxe-lhe uma xícara de chá e alguns biscoitos numa bandeja prateada. A mulher mal tocou no lanche, mas pediu à criada que trouxesse sua bíblia, além de solicitar que um grande crucifixo de madeira, que ficava preso acima da porta de entrada da casa, fosse preso na parede da cabeceira da cama do filho.
Ao fixar a cruz na parede, o criado teve a certeza de ter ouvido um rosnado grosso como o de um cão enfurecido, mas ao olhar para Dimitri, este permanecia dormindo profundamente.
A noite já havia chegado juntamente com a chuva torrencial que insistia em cair do céu. Verônica voltou ao quarto de Dimitri apenas para averiguara se o filho continuava repousando, e ao certificar-se disto, voltou à sala e leu mais alguns trechos da bíblia, buscando algumas respostas para o que estava acontecendo com seu único filho. Decidiu ir à primeira hora do dia seguinte pedir ajuda ao padre da igreja matriz; assim, em meio ao medo e pensamentos, acabou por cair no sono na poltrona da sala.
Como de costume, o dia amanheceu carrancudo e sem previsão de sol. Verônica acordou cedo, após um sono surpreendentemente pesado. Chamou um dos criados e subiu com ele ao seu quarto; procurou por sua câmera fotográfica e partiu para o quarto do filho. Dimitri permanecia num sono intenso e aparentemente tranqüilo. Não fosse pelas marcas no corpo do filho, e principalmente em seu rosto, que o deixavam envelhecido e com um aspecto repugnante, além do pesado cheiro de podridão que pairava naquele cômodo, nada poderia confirmar o que se havia se passado naquele quarto no dia anterior. Com a ajuda do empregado, Verônica tirou várias fotos do corpo do filho; seu rosto, braços e principalmente suas costas, de onde ainda se via aquelas aterradoras marcas. Saiu da mansão recusando tomar seu desjejum oferecido por uma das criadas que era a mais assustada com tudo o que havia presenciado. Talvez por este motivo, Verônica ordenou que a empregada a acompanhasse para confirmar a história improvável que teria de relatar ao padre.
Estacionou o automóvel em frente à igreja e dirigiu-se aos fundos da matriz, onde ficavam os aposentos do Padre Calvin. O padre, famoso por seus sermões entusiasmados, era muito requerido por toda a comunidade. Tinha um apreço especial por Verônica, pois sabia das dificuldades emocionais que a mulher passara após o sumiço do marido.
Padre Calvin atendeu à porta ainda com a barba por fazer e com cara de que havia acabado de acordar. Apesar de estranhar a visita naquele horário, ainda mais num dia de semana, quando normalmente não havia missa, mandou que Verônica e a acompanhante entrassem. Sentaram-se em volta de uma mesa de madeira de fórmica branca, e Verônica começou a contar toda a história ocorrida no dia anterior. Entre pausas onde a mulher não conseguia conter o choro, e era consolada pelo padre e pela empregada, conseguiu terminar de contar toda a tragédia que se abatera dentro de sua casa. Mostrou as fotos ao padre e de tempos em tempos pedia a confirmação dos relatos para a criada. Padre Calvin ouviu tudo atentamente e não a interrompeu em nenhum momento. Viu todas as fotos apenas limitando-se a erguer as sobrancelhas ao ver as costas de Dimitri. Não havia dúvidas para o velho e experiente padre: tratava-se de uma possessão demoníaca.
Gentilmente, Padre Calvin preparou um café para as mulheres e enquanto ambas se serviam, pediu licença para se aprontar. Fez a barba e tomou um rápido banho. Vestiu-se com a batina e uma faixa roxa, ornamentada com uma cruz dourada nas pontas. Foi até a sacristia e voltou com uma bolsa de couro preta nas mãos. No caminho até a casa de Verônica, Padre Calvin tentou explicar que situações como aquelas não exigia motivo para acontecer. Por mais que fossem muito escassos estes casos, Padre Calvin era um profundo conhecedor de circunstâncias como aquelas. O homem era um estudioso de todos os desígnios da igreja. Adiantou que não ia praticar um exorcismo solene em Dimitri, pois além de ter o primeiro contato com o rapaz nestas condições, se realmente entendesse que seria necessário tal ritual, precisaria antes de uma autorização do arcebispo.
Sem querer esperar mais, Padre Calvin pediu à Verônica que o levasse ao quarto do filho. Nos últimos degraus da escada, o homem apoiou-se no corrimão dourado, levado por uma repentina vertigem. Recuperou o equilíbrio e apenas acenou para Verônica confirmando que estava bem. No corredor, já sentiu o fedor característico de situações como aquelas. O cheiro rançoso entrava pelas narinas e embrulhava o estômago do padre, que levava a faixa pendurada no pescoço ao rosto para tentar evitar o choque do ar nauseabundo que infestava o local. Por pior que fosse, Verônica parecia já ter se acostumado com aquela atmosfera repugnante que tomava todo o andar de cima de sua casa.
Padre Calvin abriu a porta do quarto e se deparou com a figura do rapaz amarrado por retalhos de toalhas que eram grossas o suficiente para conter o ímpeto de Dimitri no caso de mais um ataque. Sem receio, o padre sentou-se ao lado do garoto na cama. Observou o estrago feito no rosto de Dimitri; a pele repuxada; os vincos profundos dos cortes na testa; as pústulas que dessoravam na face; as marcas roxas dos hematomas contrastavam com a pele alva, que agora adquiriam um tom azulado diante das veias que pareciam latejar no corpo franzino do rapaz; o cabelo ensebado pelo suor, resultado dos acometimentos de Dimitri. Nada daquilo lembrava o garoto calmo e amoroso que o próprio Padre Calvin conhecera e vira muitas vezes nas missas dominicais. O homem levou a mão direita sobre a testa do rapaz e fez o sinal da cruz com o polegar. O garoto pareceu remexer-se na cama incomodado com o ato, mas não abriu os olhos. O padre virou-se para a empregada que os acompanhara no trajeto e pediu a ela que buscasse sua maleta deixada na sala de estar. Quando o Padre Calvin voltou para olhar Dimitri, foi surpreendido por uma escarrada na fronte. O líquido viscoso desceu por seu nariz, enquanto o rapaz gargalhava numa voz que na verdade era a soma de dezenas de vozes diferentes. Os lábios secos e cortados do rapaz eram repuxados para baixo numa careta medonha. Entretanto seus olhos eram ainda mais apavorantes. Sobre uma olheira escura, os olhos de Dimitri não possuíam mais íris. Estavam totalmente negros, profundos e ameaçadores. As vozes que saiam da boca do rapaz, novamente não faziam nenhum sentido. Palavras estranhas em idiomas não conhecidos, que ainda assim, pareciam mudar a cada frase.
Padre Calvin virou-se para Verônica e sua criada que permaneciam à porta:
- Rápido, minha maleta!
A empregada desceu as escadas rapidamente e na volta foi seguida pelos demais empregados da mansão.
As luzes da casa começaram a piscar e a chuva lá fora continuava a cair impiedosa. O vento assoviava uma sinfonia macabra, e com força abriu as abas das janelas de madeira que batiam com estrépito no quarto, fazendo as cortinas voarem, deixando um aspecto ainda mais assustador naquele ambiente.
Padre Calvin tomou a maleta das mãos da criada, e de lá tirou sua bíblia, uma cruz prateada, um frasco de água benta, que colocou em cima de um armário baixo, além de um pequeno livro de capa preta escrito em latim.
Dimitri puxava os braços e as pernas forçando as tiras de toalha, que bem presas não ameaçavam romper-se. Mesmo assim, o rapaz se debatia convulsivamente, babando e urrando como um animal acorrentado.
Verônica chorava copiosamente abraçada a uma das criadas. Os demais empregados ficavam na ponta do pé para assistir aquela cena aterradora, mas não tinham a coragem de adentrar ao quarto. Padre Calvin aproximou-se de Dimitri e encostou a cruz de prata na testa marcada do rapaz, enquanto ele tentava morder o braço do homem. Dimitri gritou tão furiosamente que os vidros das janelas e o espelho da cômoda no quarto espatifaram-se no ar, espalhando seus cacos pelo chão. O rapaz cuspiu novamente no padre, e uma gosma amarelada grudou em sua batina, descendo lentamente pela vestimenta. Padre Calvin ficou em pé, de frente a Dimitri, aos pés da cama. As abas de madeira da janela batiam furiosamente, enquanto a chuva entrava no quarto por onde não havia mais vidro. As cortinas esvoaçavam no ar como se fossem espectros fantasmagóricos, e o vento continuava sua melodia sombria. Apesar de ser dia, o tempo lá fora era terrivelmente escuro sob as grossas e assustadoras nuvens.
Padre Calvin pediu que Verônica e os empregados o acompanhassem numa prece em voz alta suplantando os guinchos e urros do demônio que dominava Dimitri. O conjunto de vozes conseguia sobrepujar os reclamos do rapaz, que, ensandecido, continuava proferindo palavras sem sentindo, e tentando a todo custo soltar-se das amarras na cama. Após o termino da oração, o padre fez-lhe a primeira pergunta:
- Quem é você?
Dimitri parou por um momento de tentar se desvencilhar das cordas de toalha e olhou diretamente para o padre. Com um sorriso de escárnio respondeu numa língua ininteligível. De imediato, o padre reconheceu o fenômeno da xenoglossia.
- Na minha língua! – ordenou o padre.
Dimitri olhou para a porta onde estava a mãe e todos os criados atônitos. Voltou o olhar ao padre e respondeu;
- Eu sou o antigo. Sou a desgraça. Sou o imundo. Sou todos – cada uma das respostas era feita por uma voz completamente diferente. Todas desconhecidas e assustadoras.
- Aqui não há nada pra você – disse o padre com a cruz de prata erguida em frente ao peito. – Eu ordeno que vá embora e deixe o corpo desse filho de Deus.
- Não irei, padreco – disse a coisa de dentro do corpo de Dimitri. – Esse porco é meu!
- NÃO! – gritou o padre. – NADA NESTE MUNDO LHE PERTENCE – continuou ele, elevando a cruz acima da cabeça. – PELO PODER INVESTIDO A MIM POR NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E PELA SANTA SÉ, EU ORDENO QUE DEIXE ESTE CORPO IMEDIATAMENTE!!!
Uma gargalhada debochada surgiu de dentro da boca do demônio e se espalhou pelo quarto ensurdecendo todos ali presentes.
- VOCÊ NÃO ME ORDENA NADA, SEU FILHO DA PUTA – neste momento a amarra da perna esquerda de Dimitri arrebentou-se. – EU DISSE QUE ESTE PORCO É MEU!!!
As luzes piscavam no teto incessantemente; as janelas batiam com tanta força contra o umbral, que os pedaços de madeira arrebentados já pendiam pouco a pouco. Os trovões estouravam no céu. As cortinas já encharcadas pela chuva pouco se moviam com a ação do vento.
Padre Calvin abriu o pequeno livro de capa preta e começou a falar em latim:
- “ADJURE TE, SPIRITUS NEQUISSIME PER DEUM OMNIPOTENTEM”...
O poder que cada palavra possuía, parecia açoitar o corpo já dilacerado de Dimitri. O rapaz gritava desesperadamente, e pronunciava injúrias terríveis contra o padre, naquele mesma união de vozes horríveis. O vento entrava no quarto levantando papéis e derrubando objetos. A cruz de madeira que estava presa na parede acima da cama de Dimitri soltou-se do prego e voou em direção ao padre, que esquivou-se há tempo. O crucifixo cravou-se na parede oposta e ficou de ponta cabeça. Conforme a oração do padre parecia chegar ao final, sua voz se alterava ficando cada vez mais alta. Dimitri continuava a se debater, e assim conseguiu soltar a outra amarra da perna e arrebentou a corda de toalha do braço esquerdo. Padre Calvin pronunciou as últimas palavras da oração em latim aos berros, e após isso, jogou toda a água benta sobre o peito de Dimitri, que em contato com sua pele agiu como verdadeiro ácido. O corpo do rapaz agitou-se ainda mais, e seus dentes morderam os lábios que sangravam, escorrendo pelo queixo e pescoço. A lâmpada do quarto arrebentou-se no teto com o som grave do rugido do demônio em seu último golpe.
O vento lá fora pareceu serenar, ainda que a chuva continuasse a cair sem parar. Verônica buscou o abajur caído no chão e acendeu a luz parva, iluminando a cama destroçada do filho. Dimitri estava desfalecido no colchão empapado em suor e sangue. Padre Calvin era um arremedo do homem que chegara àquela casa há algumas horas atrás. Os empregados da casa olhavam para Dimitri estendido na cama, sem acreditar que aquele pesadelo havia terminado. O padre sentou-se no chão e beijou a cruz prateada. Verônica aproximou-se, receosa, do filho e constatou que Dimitri respirava normalmente. Colocou a mão sobre a testa machucada do filho. O rapaz abriu os olhos. Os seus olhos. Olhos verdes ainda que maculados com veias vermelhas.
- Mãe?! – disse o rapaz quase num sussurro.
Verônica abraçou o filho e chorou de alegria e alivio.
Com a ajuda dos empregados, Dimitri se levantou, tomou um banho e tentou se alimentar. Verônica mandou que arrumassem outro quarto para o filho repousar. Ligou para o médico da família, pois apesar do pesadelo ter chegado ao fim, as marcas no corpo do filho ainda eram evidentes. Ordenou para que um dos criados permanecesse ao lado do filho para qualquer coisa que o garoto precisasse. Fez companhia ao padre numa xícara de chá, enquanto ouvia o clérigo pedir a ela, para que mantivesse todos aqueles acontecimentos em segredo, uma vez que havia praticado um exorcismo sem a autorização de seus superiores. Verônica, obviamente atendeu ao pedido do padre, e estendeu a ordem aos empregados.
A chuva deu uma trégua naquele final da tarde, apesar do céu carrancudo. Verônica acompanhou o padre até a porta, uma vez que este preferiu pedir um táxi, e refutou o oferecimento de carona. O carro chegou e estacionou do outro lado da rua. Verônica agradeceu ao padre, lhe deu um longo abraço e um beijo no rosto. Padre Calvin apenas deu um sorriso e se dirigiu ao táxi. No meio da rua, virou-se para a mulher na porta da mansão e fez um último aceno. Olhou para a janela do quarto de Dimitri que permanecia escura e estraçalhada. Sorriu para Verônica e voltou-se a caminhar em direção ao carro. Então, apenas ouviu-se uma freada brusca, e o cantar dos pneus de um caminhão desgovernado. O corpo do padre foi arremessado cerca de dez metros de distância, caindo morto no meio fio.
No dia seguinte finalmente raiou um imponente sol, e talvez, aquele fosse o prenúncio de novos e melhores tempos.